A falácia da chegada
Por que sucesso e fracasso podem nos confundir mais do que nos orientar
Existe algo curioso que aprendi ao longo dos muitos anos trabalhando com ciclistas amadores e profissionais: tanto o sucesso quanto o fracasso podem nos tirar do eixo. A princípio, parece contraditório. Sucesso é o que buscamos, fracasso é o que evitamos. Mas, na prática, os dois podem nos colocar diante de perguntas difíceis, justamente porque nenhum deles resolve o que, no fundo, está mal resolvido dentro da gente.
Tem a vez em que vencemos. Ou quando cruzamos a linha de chegada. Quando subimos aquela montanha em que já desmontamos outras vezes. O alívio e a euforia aparecem, claro — mas eles passam rápido. E, muitas vezes, o que sobra depois é um silêncio estranho. Um vazio que não combina com o que esperávamos sentir. Eu chamo isso de “a falácia da chegada”. A ideia de que alcançar uma meta vai nos preencher por inteiro. Mas não preenche. Nem sempre. E isso não significa que havia algo errado com a meta. Significa apenas que há espaços em nós que performance nenhuma ocupa.
Do outro lado, o fracasso também cobra seu preço. Ele não apenas dói — ele nos expõe. Ficar para trás em uma competição, não manter o ritmo de sempre, abandonar o treino no meio: tudo isso vai tocando em lugares profundos. E, se não estivermos atentos, escorregamos para o mais traiçoeiro dos hábitos: a comparação. De repente, deixamos de ouvir nosso corpo para prestar atenção no que os outros estão fazendo. É assim que muitos bons ciclistas se sabotam: não por falta de talento ou dedicação, mas por não saberem lidar com a frustração de um desempenho abaixo do esperado.
Passei a ver essas situações com outros olhos quando troquei a pergunta que me guiava. Antes, era: “Como posso ser a melhor?” Agora, é: “Como posso ser melhor em melhorar?” Essa diferença, que parece pequena, muda tudo. Porque quando a meta é a excelência pessoal, a régua se torna interna. O treino deixa de ser uma prova de valor e vira um processo de aprendizado. Cada pedalada passa a ter significado, mesmo quando o resultado final não impressiona. Sucesso e fracasso viram apenas capítulos — não o começo nem o fim da história.
E melhorar, para mim, não é apenas gerar mais potência. É também me tornar mais tolerante com as falhas, mais gentil nos dias difíceis, mais generosa com os colegas de pelotão. É saber lidar com o cansaço sem cair na autossabotagem. É descansar sem culpa e voltar sem raiva. O ciclismo tem me moldado muito além da técnica — ele tem me ensinado a ser mais inteiro.
Por isso criei um ritual que aplico com os atletas. Toda vez que conquistamos um resultado que é diferenciado— seja uma grande conquista ou uma decepção doída — eu paro. Um dia. Um tempo. Para sentir. Para entender. E depois volto. Revisito o treino, ajusto o plano, observo os dados e conversamos. Mas o que mais importa é sair para pedalar de novo. Porque é no ato em si, no movimento contínuo, que as respostas aparecem. Pensar demais no que não controlo — como o desempenho alheio ou o clima imprevisível — só me afasta de mim. O processo é o lugar onde posso realmente estar com os atletas.
Claro que nem sempre é fácil. Tem dias em que o vento vem forte demais, ou o corpo parece não responder. Mas sigo. Com mais delicadeza, talvez com menos pressa, mas sigo. É esse ritmo constante, essa persistência sem brutalidade, que me protege das armadilhas emocionais do esporte. Aprendi que não preciso estar sempre rendendo, mas preciso continuar comparecendo. E esse compromisso silencioso — com o treino, comigo, com o que acredito, com os ciclistas — é o que tem feito a diferença.
No fundo, acredito que o ciclismo nos convida a viver com mais presença. A “cavar onde os pés estão”, como ouvi certa vez. A entender que não se trata apenas de medalhas ou recordes, mas de quem nos tornamos ao longo do caminho. A cada giro do pedal, a cada subida dura, há uma chance de mudança. E talvez o verdadeiro sucesso esteja justamente aí: na disposição de continuar — com lucidez, com intenção, e com o coração aberto para o que vier.


