Algumas considerações sobre treinos intervalados para ciclistas... continuação
Entenda os conceitos básicos e vá além
Resolvi escrever uma continuação do texto anterior sobre treinos intervalados.
O treino intervalado, além de ser muito importante para o desenvolvimento do ciclista, deve obedecer a alguns princípios fundamentais. Esses princípios incluem o tipo de esforço e a quantidade de esforço. Treino intervalado não é simplesmente uma questão de ir o mais forte ou mais rápido possível em cada sessão, pois fisiologicamente isso não é viável. Por isso, não se trata de uma questão de dualidade, ou seja, de ser muito forte ou muito fraco. A verdadeira ideia por trás dos treinos intervalados é proporcionar ao ciclista uma adaptação positiva sem sobrecarregar ou "destruir" o organismo.
Quando comparamos um iniciante com um ciclista que já tem uma bagagem maior, é comum observar que o iniciante geralmente não excede seus limites nos treinos intervalados, enquanto os ciclistas mais experientes frequentemente erram por suportarem maiores sobrecargas. Essa capacidade de suportar mais esforço pode levar a erros que comprometem os resultados a longo prazo. Algumas décadas atrás, era comum que ciclistas realizassem muitas sessões de treinos intervalados ao longo da semana. Contudo, mesmo quando havia alguma melhora, essa estratégia raramente produzia os melhores resultados ou sustentava o desempenho a longo prazo. Os treinadores, com o tempo, começaram a perceber isso na prática, e hoje grande parte do entendimento sobre treinos intervalados é baseado nos resultados práticos que promovem a evolução do ciclista.
Dentro de um contexto mais amplo, é fundamental que o ciclista tenha muitos dias leves, alguns dias difíceis e pouquíssimos dias de intensidade máxima. É nesse contexto que os treinos intervalados devem ser inseridos. De maneira prática, isso significa que, no máximo, três vezes por semana o ciclista deve realizar sessões de treinos intervalados, sendo que, na maior parte da temporada, apenas duas sessões são recomendadas. Não é uma questão de capacidade de realização, mas sim porque os resultados são melhores com menos sessões. Simples assim.
Além disso, vale destacar que não é porque um treino tem duração curta que ele não pode "destruir" o ciclista. É preciso ficar atento aos intervalados curtos e extremamente intensos. Mesmo as inúmeras pesquisas que analisaram treinos intervalados com ciclistas precisam ser vistas com ressalvas, não pela qualidade do pesquisador, mas pela amostra e pelo tempo de análise, que geralmente não ultrapassa 10 semanas. Portanto, é essencial olhar para o que está acontecendo no mundo real dos ciclistas e, a partir daí, buscar a melhor evolução. É necessário observar o que traz os melhores resultados no curto, médio e longo prazo. Isso não significa menosprezar a pesquisa científica, mas sim integrá-la com o que se observa na prática para criar estratégias mais eficazes.
Outro ponto importante é que o ciclista deve ir além dos números. Ele não pode olhar apenas para os watts, a velocidade ou a frequência cardíaca. É necessário considerar o tipo de esforço que uma prova exige. Para uma competição de uma hora, duas horas, cinco horas ou até oito horas, a pergunta inicial deve ser: como potencializar o esforço nesse tempo de atividade? Partindo dessa premissa, é possível afirmar que diferentes distâncias ou tempos de prova exigirão do ciclista uma mistura específica de esforços em diferentes intensidades. Dentro desse espectro, as sessões intervaladas devem ter diferentes combinações de intensidades para cada objetivo e sem levar o ciclista à extrema exaustão máxima, mesmo que a competição seja de velocidade. Afinal, o objetivo dos treinos intervalados não é apenas desafiar o corpo, mas construir adaptações que permitam desempenhos superiores em cenários variados e, ao mesmo tempo, sustentáveis no longo prazo.
Em resumo, os treinos intervalados devem ser planejados cuidadosamente, respeitando princípios fisiológicos e as necessidades específicas de cada ciclista. O equilíbrio entre intensidade e recuperação, aliado à análise detalhada das demandas reais das competições, é o que garantirá resultados sólidos e duradouros. Não se trata apenas de treinar mais ou mais forte, mas de treinar com inteligência e estratégia.


