Nenhum ciclista treina igual
E isso não é um problema — é uma vantagem para quem sabe escutar
Treinar ciclistas é muito mais do que prescrever zonas de potência, definir microciclos ou montar blocos de carga. É, antes de tudo, um exercício de escuta — da linguagem do corpo, das reações emocionais, do jeito de se posicionar diante da dificuldade, da ambição e da dúvida. Ao longo dos anos, percebi que a forma como um atleta responde ao treino e à competição não depende apenas do que ele consegue fisicamente, mas de como ele vê o mundo, como reage a ele, como se protege e como se entrega.
Um dia, ao ler um livro sobre perfis de personalidade que usava cores para representar diferentes formas de comportamento — vermelho, amarelo, verde e azul — percebi que aquilo não era só um modelo teórico. Eram exatamente os ciclistas que eu treinava. Cada um com seu jeito, suas virtudes e seus desafios. E, mais do que isso, cada um me obrigando a ser um treinador diferente.
O primeiro era o vermelho. Intenso, direto, impaciente. Queria resultado, agora. Tinha talento, fibra, coragem. Não temia esforço. Se o treino pedia 5, ele entregava 6 — e ainda perguntava por que não tinha pedido 7. O lado bom era a entrega: comprometido, competitivo, inspirado por metas grandes. Mas o lado difícil era o excesso de impulso. Era difícil conversar sobre processo, sobre ritmo, sobre paciência. Qualquer pausa parecia fraqueza. Para ele, o erro não era o excesso, era não tentar mais. E ali, como treinador, precisei aprender a conter sem frear. A canalizar sem sufocar.
O segundo era o amarelo. Um comunicador nato, entusiasmado, criativo. Trazia leveza para os treinos, bom humor para os grupos, olhava o ciclismo como uma experiência, não como uma obrigação. Tinha dias geniais, inspiradores. Mas em outros, desaparecia — ou trocava o treino por uma pedalada improvisada com amigos. O lado bom era o brilho, a espontaneidade, o espírito de equipe. O lado difícil era a oscilação, a falta de estrutura, a dificuldade em manter constância quando a motivação sumia. Com ele, aprendi que treinar não é só cobrar, é também seduzir a disciplina. É mostrar que constância também pode ser prazerosa.
O terceiro era o verde. Calmo, metódico, fiel ao plano. Treinava todos os dias, no horário certo, sem atalhos nem firulas. Era estável, resiliente, confiável. Mas raramente falava. Quando sentia dor, demorava a contar. Quando tinha dúvida, hesitava. O lado bom era a consistência: ele era a rocha do time. O lado difícil era o silêncio, a dificuldade de fazer ajustes finos porque ele não expressava o que estava sentindo. Com ele, aprendi que um bom treinador também provoca perguntas. E que o silêncio nem sempre é aceitação — às vezes é proteção.
O quarto era o azul. Técnico, analítico, detalhista. Sabia exatamente quantos watts fez em cada intervalo, acompanhava sua frequência cardíaca em tempo real, questionava cada ajuste. Queria entender tudo antes de fazer. O lado bom era o compromisso com a qualidade. Nenhuma sessão era feita de qualquer jeito. O lado difícil era o perfeccionismo. A dúvida eterna. A tendência a adiar o esforço por medo de não ser perfeito. Com ele, aprendi que a performance também exige tolerância com a imperfeição. Que o melhor treino nem sempre é o mais controlado — às vezes é o mais ousado.
Com o tempo, percebi que os perfis não são estáticos. Um ciclista pode ser vermelho na competição e verde no treino. Outro pode ser azul em momentos de dúvida e amarelo quando se sente livre. Os perfis são lentes, não rótulos. São pontos de partida para entender reações, não caixas onde se aprisiona comportamento. E nós, treinadores, precisamos nos mover com eles, acompanhar as oscilações, entender o que o atleta precisa — e não apenas o que ele mostra.
Talvez o ponto mais importante de toda essa reflexão seja este: ignorar o perfil do atleta é um risco invisível, mas profundo. Quando tratamos todos da mesma forma, corremos o risco de perder cada um de forma diferente: o vermelho se afasta por falta de desafio, o azul por falta de clareza, o verde por desconforto, o amarelo por tédio. Não é sobre ser condescendente. É sobre ser estratégico. O melhor plano do mundo, quando mal comunicado, vira ruído. E ruído, no ciclismo, custa caro.
Por isso, a escuta não é apenas empatia — é método. E o diálogo com cada tipo de ciclista não começa com dados, mas com sensibilidade. Às vezes, a performance que buscamos está encoberta por um ruído relacional, por uma linguagem mal alinhada, por um tipo de pressão que o atleta não sabe nomear.
A maturidade técnica de um treinador se mede também pela capacidade de ajustar o ambiente. De se adaptar sem perder a essência. De ensinar sem agredir. E, principalmente, de ajudar o atleta a se reconhecer. Porque quando o ciclista entende seu próprio jeito de reagir — quando ele reconhece que sua tendência não é um defeito, mas uma característica a ser equilibrada — ele se torna mais dono do processo. Mais capaz de sair do automático. Mais preparado para agir com autonomia.
O verdadeiro amadurecimento começa quando o atleta entende não só os watts que precisa produzir, mas o tipo de mente que precisa alimentar. E nesse ponto, o perfil não limita — ele orienta. É a partir do autoconhecimento que ele deixa de apenas reagir e começa a escolher como quer responder.
Se o treinador é um espelho, o que se reflete nele precisa ser real. E a estrada, que é igual para todos, se transforma quando atravessada por diferentes jeitos de sentir, pensar e reagir. Com o tempo, entendi que treinar não é aplicar um método. É viver um encontro. Um encontro entre ciência, escuta e presença.


