O ciclista não desempenha sozinho
É o ciclista que pedala, fato! Mas para ir além a responsabilidade deve ser coletiva.
No ciclismo, o conceito de assumir riscos reais se manifesta de forma clara na relação entre o atleta, o treinador e a equipe. Para o ciclista, assumir o risco significa muito mais do que simplesmente alinhar em uma prova ou se dedicar aos treinos. É um compromisso profundo que envolve não apenas o corpo, mas também as emoções e, muitas vezes, os recursos financeiros. Pense, por exemplo, em diferentes ciclistas, que, ao perseguir títulos e a árdua boa do ciclismo profissional, expôs-se a desafios físicos extremos e a riscos de quedas graves, doença, lesões... Mathieu van der Poel, que compete no ciclocross, mountain bike e estrada, onde quedas e lesões são comuns, como nas olimpíadas de Tokyo, quando sofreu um acidente.
Sendo um pouco mais saudosista, Annemiek van Vleuten é outro exemplo: em 2016, sofreu uma queda dramática nos Jogos Olímpicos do Rio quando liderava a prova tendo que abandonar a competição. Voltou mais forte, conquistando o título olímpico em Tóquio e provando como os riscos físicos são uma constante na vida dos ciclistas. Esses riscos não se limitam aos grandes nomes; muitos ciclistas amadores investem tudo o que têm para construir suas carreiras, sem a segurança de contratos milionários, enfrentando o risco financeiro de ver seus esforços não darem retorno.
Neste cenário, surge a importância do risco compartilhado. O conceito vai além do atleta assumir tudo sozinho. Quando treinador e equipe também arriscam suas carreiras, cria-se um ambiente de confiança e responsabilidade mútua. Veja o exemplo da equipe Jumbo-Visma, que conquistou os três Grand Tours em 2023. Eles demonstraram como o risco compartilhado é essencial, ajustando estratégias entre Jonas Vingegaard, Primož Roglič e Sepp Kuss ( essa última gerou bastante polêmica) para que cada um assumisse papéis de liderança ou apoio em momentos diferentes. Essa abordagem equilibrou os riscos e o desgaste entre todos os membros da equipe. Da mesma forma, treinadores como Tim Kerrison, que trabalhou com Froome e outros atletas na antiga equipe Sky, colocaram sua reputação em jogo ao apostar em métodos inovadores de treinamento e gerenciamento. Esses exemplos mostram que, ao alinhar incentivos e assumir riscos junto com o atleta, treinadores e equipes criam um sistema mais justo e eficiente.
Por outro lado, quando o risco não é compartilhado, a relação se torna desequilibrada e, muitas vezes, prejudicial para o atleta. Em casos assim, treinadores, equipes ou patrocinadores podem tomar decisões que priorizam resultados imediatos, transferindo todo o peso e as consequências na maioria para o ciclista. Um exemplo claro é o caso de Tom Dumoulin, um grande ciclista de estrada que, em 2021, decidiu fazer uma pausa na carreira devido à pressão extrema que sentia para performar. Ele relatou que havia perdido a conexão com o prazer de pedalar, enquanto sentia que todas as decisões eram tomadas com foco apenas em resultados, sem considerar sua saúde mental e emocional. Essa desconexão é típica de um sistema onde o ciclista carrega sozinho as consequências das escolhas feitas por outros.
Outro exemplo emblemático é o de ciclistas que competem em condições perigosas sem que a equipe ou os organizadores considerem adequadamente os riscos. Durante o Giro d'Italia 2020, uma etapa de 258 km foi realizada sob condições climáticas severas, com chuva e frio extremo. Vários atletas, incluindo Adam Hansen, criticaram publicamente a organização por não priorizar o bem-estar dos ciclistas, mostrando como decisões tomadas sem compartilhar os riscos podem levar a desgastes físicos e emocionais desnecessários. Além disso, quando treinadores negligenciam os sinais de fadiga ou lesão de seus atletas para alcançar metas de curto prazo, os resultados podem ser devastadores. O caso de Marco Pantani, embora complexo e multifatorial, ilustra o que pode acontecer quando o sistema empurra um atleta além dos seus limites sem oferecer suporte genuíno. Pantani, após anos de pressão extrema e envolvimento em diversas polêmicas, viu sua saúde física e mental deteriorarem rapidamente, culminando em sua morte precoce.
Esses exemplos evidenciam como a ausência de risco compartilhado coloca o ciclista em uma posição vulnerável. Ele não apenas enfrenta o desgaste físico e psicológico, mas também sente a solidão de carregar um fardo desproporcional. Esse desequilíbrio é prejudicial tanto para o indivíduo quanto para o esporte como um todo, minando a confiança e comprometendo a sustentabilidade das carreiras e das relações dentro das equipes.
Quando o risco é compartilhado, o sistema se torna mais justo e confiável. No ciclismo, isso significa que o ciclista sabe que não está sozinho: o treinador e a equipe demonstram comprometimento genuíno com a jornada, independentemente do resultado. Esse é o cerne de um conceito que julgo ser fundamental, que destaca a importância de todos os envolvidos em uma situação estarem expostos às consequências das decisões. Quando há risco compartilhado, não existe uma hierarquia de sacrifício injusta – todos têm algo a perder e, por isso, as decisões tendem a ser mais cuidadosas e equilibradas.
Por exemplo, um treinador que coloca sua própria reputação em jogo ao priorizar a saúde do atleta sobre resultados imediatos toma decisões alinhadas não apenas com o bem-estar do ciclista, mas também com a sustentabilidade da relação. Esse é o contrário do que se chama de "riscos assimétricos", onde apenas uma das partes carrega o peso das consequências. No ciclismo, quando todos estão "na mesma aposta", o suporte mútuo se torna mais forte e os processos de decisão mais éticos. Da mesma forma, equipes que investem em infraestrutura, como suporte psicológico e treinamento baseado em ciência, demonstram que estão dispostas a correr riscos junto com os atletas. Isso se traduz em confiança e reciprocidade. Essas dinâmicas fortalecem o sistema como um todo: ao alinhar incentivos e riscos, cria-se um ambiente de crescimento, onde as adversidades não quebram o time, mas o tornam mais resilientes e preparados.
Assim, o verdadeiro sucesso no ciclismo, assim como em qualquer área da vida, surge quando todos os envolvidos aceitam colocar o risco a prova. Isso significa compartilhar vitórias e derrotas, reconhecendo que, sem risco mútuo, o sistema se torna frágil e insustentável. É nessa harmonia entre responsabilidade e exposição que se constroem não apenas campeões, mas também relações sólidas e duradouras.


