Está é uma cena bastante comum no ciclismo? O atleta termina um treino e, antes mesmo de guardar a bicicleta, já está olhando para os números. Confere a potência média, compara a frequência cardíaca com a sessão anterior, observa o TSS, olha a carga da semana, verifica se o TrainingPeaks classificou a sessão como produtiva, talvez confira a recuperação indicada pelo relógio e, inevitavelmente, termina no Strava. Ali está alguém que fez uma boa sessão, mas agora encontra outro ciclista que também treinou, porém fez mais forte ou aparentemente melhor. E uma dúvida que não existia durante o treino aparece de repente: será que eu deveria estar fazendo outra coisa?
Essa situação parece banal porque se tornou parte da rotina, mas existe algo bastante sofisticado acontecendo aí. O ciclista não está necessariamente treinando mal. Ele pode estar treinando bastante, pode estar cumprindo a planilha e pode até estar evoluindo. O problema é que uma parte importante da sua energia mental está sendo consumida por uma pergunta que nunca termina: será que existe alguma coisa melhor que eu deveria estar fazendo?
Essa pergunta parece representar comprometimento, afinal quem quer melhorar deveria procurar melhorar o tempo todo. Só que existe uma diferença importante entre buscar evolução e permanecer permanentemente insatisfeito com o próprio processo. A primeira exige curiosidade e a segunda pode produzir uma incapacidade de permanecer em uma direção por tempo suficiente para que ela tenha alguma chance de funcionar.
O ambiente atual do treinamento favorece exatamente esse comportamento. Nunca tivemos acesso a tanta informação sobre ciclismo, treinamento, fisiologia, recuperação, nutrição, equipamentos e metodologias. Para praticamente qualquer dúvida que um ciclista tenha, existem dezenas de respostas disponíveis. Há estudos, vídeos, podcasts, treinadores, atletas profissionais, influenciadores, aplicativos e algoritmos oferecendo alguma explicação. O problema é que essa abundância não veio acompanhada, necessariamente, da capacidade de distinguir aquilo que é relevante daquilo que é apenas interessante. O que serve de base para esta reflexão chama atenção para essa proliferação de informações e para a dificuldade crescente de encontrar uma narrativa clara de melhoria em meio a tantas possibilidades.
E talvez essa seja uma das grandes ironias do treinamento moderno: quanto mais opções aparecem, mais difícil pode ficar escolher uma.
O ciclista começa procurando uma resposta e encontra vinte. Depois descobre que algumas delas são incompatíveis. Em seguida percebe que existem diferentes maneiras de distribuir a intensidade, diferentes interpretações sobre zona 2, diferentes formas de trabalhar o VO₂max, diferentes modelos de periodização, diferentes critérios para recuperação. Ele não está mais tentando descobrir o que fazer, está tentando resolver todas as possibilidades antes de começar.
Só que treinamento não funciona dessa maneira.
Você não precisa descobrir tudo o que pode funcionar. Precisa descobrir o que faz sentido para você, neste momento, diante do objetivo que possui e das condições que consegue sustentar.
Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a maneira como enxergamos a preparação.
Porque é perfeitamente possível que diferentes metodologias funcionem. O problema aparece quando o atleta tenta utilizar todas simultaneamente. A reflexão vai no sentido de que “tudo funciona”, mas que não é possível fazer tudo ao mesmo tempo. E existe uma consequência particularmente importante nisso: quanto mais complexo se torna o processo, mais difícil fica perceber o que realmente está funcionando.
Essa talvez seja uma das coisas mais subestimadas no treinamento.
A simplicidade não é valiosa apenas porque torna a planilha mais fácil de entender, ela é valiosa porque produz clareza causal.
Se você mantém uma estrutura relativamente estável durante algumas semanas, consegue observar o que acontece. Se a carga aumenta e a performance melhora, existe alguma informação ali. Se você altera a distribuição da intensidade e percebe determinada resposta, existe algo para analisar. Se muda o volume, acrescenta força, altera a recuperação, troca a estratégia alimentar e ainda modifica a bicicleta, talvez até consiga melhorar, mas terá muito mais dificuldade para entender por quê.
E isso importa porque treinar não deveria ser apenas acumular estímulos e deveria também ser um processo de aprendizagem. O ciclista precisa descobrir como seu organismo responde, como reconhece padrões, precisa entender o que produz adaptação e o que produz apenas cansaço, também precisa perceber quando uma sessão difícil representa um estímulo adequado e quando representa apenas uma decisão ruim.
Mas para aprender essas coisas é necessário algum grau de estabilidade. É difícil aprender com um experimento que nunca permanece igual tempo suficiente para produzir uma resposta observável.
É por isso que a busca permanente pela novidade pode ser tão sedutora quanto prejudicial. A novidade dá a sensação de progresso antes que o progresso realmente exista e um novo protocolo, por exemplo, produz entusiasmo. Uma nova métrica produz curiosidade, um novo método cria a impressão de que finalmente encontramos aquilo que faltava. E, quando a adaptação exige semanas e meses, o cérebro já está procurando outra coisa.
O atleta começa a trocar o processo pela sensação de estar sempre otimizando e existe uma diferença enorme entre as duas coisas: A primeiro produz adaptação e a segundo produz movimento, contudo nem todo movimento é progresso.
Talvez o exemplo mais evidente disso esteja nas redes sociais. O ciclista abre o Strava e encontra alguém fazendo um treino que parece extraordinário. Cinco horas, milhares de metros de altimetria, uma potência que ele jamais sustentaria. Alguns minutos depois, o próprio treino parece pequeno. Não porque tenha mudado, mas porque agora existe uma referência diferente ocupando sua cabeça.
O problema é que a publicação não mostra a realidade inteira.
Você não vê o que aconteceu antes daquele treino. Não sabe como aquela pessoa dormiu. Não sabe o objetivo daquela sessão. Não conhece a história de treinamento, a disponibilidade de tempo, o momento da temporada ou as circunstâncias que tornaram aquele treino possível. Você vê um recorte cuidadosamente selecionado e começa a utilizá-lo como argumento contra o seu próprio processo. O que chama atenção justamente para esse fenômeno é aquilo que aparece nas redes sociais raramente representa a realidade completa e frequentemente é uma versão editada para gerar impacto.
E existe algo ainda mais perverso.
Depois de ver aquilo, você não precisa nem mudar o treino para sofrer as consequências, basta começar a pensar:
“Será que estou treinando pouco?” “Será que deveria fazer mais volume?”
“Será que minha intensidade está errada?”“Será que meu treinador está deixando alguma coisa passar?”“Será que aquele método é melhor?”
A sessão seguinte já começa carregada por uma dúvida que nasceu de uma informação que, em primeiro lugar, nem era sobre você.
É aqui que a atenção se torna uma variável importante do treinamento.
Nós costumamos pensar na atenção como uma característica psicológica, quase como uma questão de personalidade. Mas ela também é um recurso. E, como qualquer recurso, é limitado. O que chama atenção para isso é discutir o custo de oportunidade da atenção: cada decisão, cada nova recomendação e cada estímulo informacional compete pela mesma capacidade mental que precisamos utilizar para treinar, competir, recuperar e tomar boas decisões.
Talvez o ciclista não esteja cansado apenas porque treinou muito, talvez esteja cansado também porque está tentando administrar informação demais.
E essa fadiga não aparece no Garmin, não aparece no TSS/ATL/CTL, não aparece necessariamente na frequência cardíaca, mas pode aparecer na incapacidade de permanecer concentrado em uma direção. É por isso que proteger a atenção pode ser uma vantagem competitiva.
Quando analiso atletas de maior nível e destaco a capacidade de proteger a atenção, não estou defendendo ignorância. Estou falando sobre relevância e sobre distinguir o que merece espaço mental do que apenas parece interessante.
Essa habilidade é especialmente importante no ciclismo porque o esporte oferece um número praticamente infinito de coisas para acompanhar.
O atleta pode acompanhar o próprio treino, o treinamento dos adversários, o equipamento dos profissionais, novas pesquisas, novas metodologias, novos sensores, novas métricas, pode acompanhar influenciadores, acompanhar as recomendações do aplicativo eacompanhar a própria performance histórica.
E pode passar tanto tempo acompanhando tudo isso que sobra cada vez menos espaço para fazer aquilo que realmente produz adaptação: treinar.
Essa frase parece óbvia, mas talvez precise ser repetida e em determinado momento, estudar treinamento começa a competir com o próprio treinamento.
E não existe nada de sofisticado nisso, existe apenas uma inversão de prioridades.
O conhecimento deveria melhorar a prática, porém quando o conhecimento começa a impedir a prática, alguma coisa saiu do lugar.
É por isso que eu gosto da ideia de que um bom processo de treinamento não deveria apenas dizer ao atleta o que fazer. Ele deveria também diminuir a quantidade de coisas que o ciclista precisa decidir diariamente.
Isso não significa transformar o ciclista em alguém passivo. Significa retirar do caminho decisões que já poderiam ter sido tomadas anteriormente.
Se você definiu uma estrutura coerente de treinamento, não precisa reconsiderá-la toda manhã. Se o objetivo da sessão está claro, não precisa decidir a cada cinco minutos se existe um protocolo melhor. Se o planejamento foi construído a partir do contexto do atleta, não é necessário reconstruí-lo porque apareceu uma publicação nova.
Existe liberdade justamente porque algumas decisões foram tomadas antes e um bom processo cria uma espécie de proteção contra o ruído.E isso talvez seja uma das funções mais importantes de um treinador e não é necessariamente saber mais do que todo mundo.Mas saber o que não precisa entrar no processo.
Essa é uma habilidade muito diferente.
Porque o treinador também está submetido ao mesmo ambiente informacional. Também lê pesquisas, acompanha tendências, vê o que outros profissionais estão fazendo e recebe novas informações diariamente. A diferença está em não transformar cada informação interessante em uma mudança de treinamento.
O treinador precisa filtrar antes de transmitir, caso contrário, ele apenas terceiriza para o atleta o mesmo ruído que recebeu do ambiente.
Talvez seja por isso que a experiência tenha um componente tão importante que não aparece em nenhum certificado: a capacidade de dizer “isso é interessante, mas não é importante agora”.
Essa frase pode parecer simples, porém na prática, pode economizar semanas de confusão porque existe um mercado inteiro interessado em convencer o ciclista de que sempre falta alguma coisa.
Falta um equipamento, uma métrica, um protocolo, uma suplementação, uma zona, uma tecnologia, uma metodologia… Falta alguma coisa.
A complexidade pode inclusive se tornar um produto. Existe valor comercial em transformar coisas relativamente simples em sistemas tão sofisticados que o consumidor passe a acreditar que não consegue navegar pelo processo sem uma ferramenta ou especialista.
Isso não significa que toda complexidade seja inútil, apenas que precisamos perguntar: essa complexidade está melhorando minha decisão ou apenas aumentando aquilo que preciso administrar?
É uma pergunta muito poderosa porque uma nova métrica pode ajudar, assim como um novo teste ou modelo, mas cada elemento acrescentado ao sistema também cria uma nova possibilidade de interpretação, uma nova decisão e uma nova oportunidade de dúvida.
Por isso, o treinamento precisa de filtros e talvez um dos filtros mais importantes seja o tempo. Não o tempo de uma sessão ou o tempo necessário para que uma estratégia possa ser observada.
Quem muda tudo toda semana raramente sabe o que realmente funcionou e o ciclista que consegue manter uma direção durante meses começa a construir uma história. E essa história permite compreender o próprio organismo de maneira muito mais profunda.
É claro que consistência não significa insistir em qualquer coisa, mas também não significa mudar diante de qualquer desconforto. Existe uma diferença entre um processo que precisa ser corrigido e um processo que ainda não teve tempo de produzir seus efeitos.
Essa diferença exige julgamento e o julgamento exige atenção.
No final, talvez o grande desafio do ciclismo contemporâneo não seja descobrir mais uma maneira de melhorar, talvez seja conseguir permanecer suficientemente concentrado para aplicar bem aquilo que já sabemos que importa.
Porque existe uma pergunta que parece inteligente, mas pode ser uma armadilha:
“Estou fazendo tudo o que poderia estar fazendo?”
Se a resposta for não, provavelmente sempre haverá alguma coisa para acrescentar.
Sempre!!!
Você sempre poderia fazer mais.
Mas essa pergunta não tem fim.
Talvez uma pergunta melhor seja outra:
“Estou fazendo aquilo que realmente importa, de maneira suficientemente consistente para que isso possa produzir uma mudança?”
Essa pergunta é muito menos excitante e justamente por isso talvez seja muito mais importante. Porque performance não precisa necessariamente de mais coisas. Às vezes, precisa de menos interferência, comparação, mudança, ruído e menos necessidade de descobrir uma resposta nova todos os dias.
Uma ideia que considero especialmente poderosa: encontrar a simplicidade e aplicá-la de maneira consistente é mais difícil do que experimentar tudo que parece poder ajudar; aprender a ignorar também é uma habilidade.
Talvez seja exatamente isso que esteja faltando a muitos ciclistas: mais tempo dentro de uma boa metodologia.
Porque existe um momento em que estudar treinamento deixa de melhorar o treinamento e começa a atrapalhá-lo.
Nesse momento, talvez a atitude mais inteligente não seja procurar uma resposta nova, talvez seja simplesmente fechar o aplicativo, guardar o celular e ir pedalar.


Muito bom 👏👏👏