Raramente fazemos uma pergunta quando começamos a treinar: por que exatamente eu quero melhorar?
Parece uma pergunta simples, quase ingênua, porque normalmente acreditamos que sabemos a resposta. Quero ficar mais forte, quero subir melhor, acompanhar o grupo, quero fazer uma determinada prova, melhorar meu desempenho, ganhar na minha categoria, voltar a ser o ciclista que eu era alguns anos atrás…
Todas essas respostas parecem suficientes, mas talvez não sejam. Porque existe uma diferença enorme entre saber aquilo que queremos fazer e saber por que decidimos querer aquilo. E talvez essa diferença explique uma parte importante da maneira como muitos ciclistas treinam durante anos sem nunca perceber que estão perseguindo objetivos que, na verdade, não escolheram. A ideia parte justamente dessa provocação: grande parte dos objetivos que perseguimos é influenciada por expectativas, ambiente, cultura, pessoas próximas e pelo contexto em que estamos inseridos. E existe algo ainda mais desconfortável nessa ideia: mesmo quando não escolhemos conscientemente um objetivo, nossas ações continuam servindo a algum objetivo.
Pense em um ciclista que diz que quer melhorar sua performance, mas que passa boa parte do treinamento tentando não perder para os outros. Ele acompanha o grupo porque não quer ficar para trás, aumenta a intensidade porque alguém acelerou, olha o ranking do Strava porque precisa saber onde está em relação aos outros, escolhe determinadas provas porque são as provas que todo mundo está fazendo e comemora uma evolução porque finalmente conseguiu acompanhar aquele ciclista que, há algum tempo, parecia inalcançável. Ele pode dizer que seu objetivo é melhorar. Mas será mesmo que o objetivo é melhorar? Ou o objetivo é ser reconhecido como alguém que pedala bem? Talvez seja aprovação, talvez seja pertencimento, necessidade de não se sentir inferior, talvez seja simplesmente evitar a sensação desagradável de descobrir que outros estão evoluindo enquanto ele permanece no mesmo lugar. E isso muda completamente a interpretação do treinamento. Porque uma coisa é treinar para construir determinada capacidade. Outra, muito diferente, é treinar para aliviar uma insegurança.
É possível, portanto, que um ciclista seja extremamente disciplinado e ainda assim esteja indo na direção errada. Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de aceitar quando falamos de treinamento. Estamos acostumados a imaginar que disciplina e consistência são virtudes suficientes para produzir progresso. Mas consistência é apenas a capacidade de repetir alguma coisa. Ela não garante que aquilo que está sendo repetido seja aquilo que deveria ser construído. Você pode ser absolutamente consistente em uma direção que nunca escolheu conscientemente. Pode passar dois anos cumprindo treinos, acumulando quilômetros, acompanhando números, participando de provas e melhorando determinados indicadores sem jamais parar para perguntar se aquele desempenho corresponde àquilo que realmente queria como ciclista. A produtividade, nesse caso, pode esconder uma forma sofisticada de estagnação. Você está fazendo muita coisa. Só não necessariamente está construindo o futuro que imagina estar construindo: objetivos que se encaixam perfeitamente nos hábitos, nas circunstâncias e no ambiente atual raramente exigem uma transformação significativa.
É por isso que tenho alguma resistência à maneira como falamos de objetivos “realistas”. Existe uma utilidade evidente em estabelecer metas plausíveis, especialmente quando estamos falando de planejamento esportivo. O problema aparece quando “realista” passa a significar simplesmente aquilo que consigo alcançar sem precisar mudar muito. Se o meu objetivo cabe perfeitamente dentro da rotina que já tenho, dos hábitos que já mantenho, das escolhas que já faço e das limitações que já aceitei, talvez ele não esteja realmente apontando para um futuro diferente. Talvez esteja apenas organizando melhor o presente. E não há nada de errado em querer isso, o problema é quando acreditamos estar perseguindo transformação enquanto, na prática, estamos apenas aperfeiçoando a maneira como permanecemos onde estamos.
Imagine um ciclista que trabalha em determinado horário, dorme pouco, treina sempre nos mesmos dias, participa de todos os pedais sociais, nunca abre mão de um determinado hábito e, ainda assim, estabelece como meta disputar uma prova em um nível muito superior ao seu atual. Se o objetivo for verdadeiro, alguma coisa terá que entrar em conflito. Talvez seja necessário dormir mais, reduzir determinados treino, talvez seja necessário aprender a controlar a intensidade, seria plausível pensar que algumas atividades que ele considera importantes tenham que deixar de existir, aceitar algumas semanas aparentemente monótonas ou tenha que dizer não a coisas que gostaria de fazer. É nesse momento que descobrimos se o objetivo possui realmente alguma força ou se era apenas uma frase bonita colocada no calendário.
Porque um objetivo verdadeiro não serve apenas para dizer onde você quer chegar. Ele muda aquilo que você consegue enxergar no caminho. Quando você define uma direção, começa a filtrar o mundo de outra maneira. Algumas informações passam a importar mais e outras perdem completamente o valor. Oportunidades que antes pareciam interessantes tornam-se distrações que você sequer percebia, passam a ser evidentes. É exatamente essa uma das ideias centrais: nossos objetivos funcionam como filtros de atenção; eles determinam aquilo que percebemos como relevante e podem fazer oportunidades convencionais parecerem irrelevantes quando comparadas a uma direção mais ambiciosa.
Isso explica também por que o excesso de informação pode ser tão paralisante para o ciclista. Se você não sabe exatamente o que está tentando construir, qualquer informação parece potencialmente importante. Um novo protocolo de VO₂max pode ser importante, uma nova interpretação sobre zona 2 pode ser importante, um estudo sobre lactato pode ser importante, uma nova métrica do Garmin pode ser importante, o treino que seu amigo fez pode ser importante, a sessão publicada por um profissional pode ser importante. O problema é que, quando tudo parece importante, você não possui mais um critério de seleção. E sem critério de seleção, a informação deixa de ser ferramenta e passa a ser ruído.
Talvez seja por isso que alguns ciclistas estejam sempre procurando a próxima coisa que precisam fazer. Eles não necessariamente têm falta de conhecimento, mas sim falta de uma direção suficientemente clara para decidir qual conhecimento merece atenção. Um objetivo forte faz algo que nenhum algoritmo consegue fazer por você: estabelece uma hierarquia. Ele diz, mesmo sem dizer explicitamente, “isto importa mais do que aquilo”. E quando essa hierarquia não existe, o ambiente passa a escolher por você.
O grupo escolhe, o relógio escolhe, o Strava escolhe, o treinador escolhe, o algoritmo escolhe, o medo escolhe, a comparação escolhe e … o hábito escolhe.
Nesse sentido, uma dos questionamentos mais importantes que um ciclista possa fazer antes de perguntar qual treino deve realizar amanhã: se ninguém pudesse ver meus watts, meus tempos, meus resultados ou meus treinos, o que eu realmente escolheria tentar construir?
Pode ser que a resposta seja diferente daquela que você vem perseguindo.
E talvez esse seja o primeiro sinal de que você finalmente começou a escolher seu próprio objetivo.


