O treino não é o que você sempre acreditou: O ciclista que só pensa em fazer mais.
Como grandes treinadores de endurance estão redefinindo o caminho para a performance — e por que isso confirma o que venho aplicando há anos no ciclismo
Existe uma diferença profunda entre treinar e evoluir. Treinar, qualquer pessoa faz. É possível repetir sessões, girar horas, acumular quilometragem e acreditar que isso é suficiente para avançar. Mas evoluir exige outra camada de entendimento — exige método, consciência, contexto, paciência e uma compreensão real do que move o corpo humano dentro de um esporte tão exigente quanto o ciclismo. Talvez por isso, a maior transformação recente no campo da performance de endurance não tenha vindo das tecnologias novas, nem das métricas da moda, nem dos modelos matemáticos cada vez mais complexos. Ela veio da observação do que realmente funciona na prática diária com atletas de elite.
E é exatamente isso que revela o artigo *Perspectives of World-Class Endurance Coaches on the Evolution of Athlete Training and Performance* (IJSpp, 2025). Nele, 78 treinadores de alto nível, de 14 modalidades diferentes, compartilham não teorias, mas constatações — aquilo que eles já viram acontecer repetidas vezes, o que desfaz ilusões e o que realmente constrói um atleta. No fundo, o estudo oferece uma visão panorâmica que confirma algo que sempre defendi e pratiquei ao trabalhar com ciclistas amadores e profissionais: não evolui quem busca atalhos. Não performa quem busca milagres. Não cresce quem só acumula sofrimento. Evolui quem constrói as bases corretamente.
Uma leitura atenta do artigo mostra que os maiores treinadores do mundo não estão obcecados por ganhos marginais, por detalhes que só começam a fazer diferença quando o essencial já está resolvido. Pelo contrário: o que mais valorizam é justamente aquilo que forma a estrutura — aquilo que sustenta, organiza e permite que o atleta dure, tolerando carga ao longo de meses, e não apenas ao longo de dias. Essa visão não só confirma o que venho aplicando há anos como treinador, como reforça que aquilo que muitos consideram “simples” ou “básico” é, na verdade, o que transforma atletas.
O estudo revela que o centro da evolução do atleta contemporâneo está na individualização. Os melhores treinadores do mundo são unânimes: cada atleta responde de um jeito, e o treino precisa ser moldado ao corpo, à vida, ao histórico, ao emocional, ao momento. É o atleta que molda o treino — nunca o contrário. E essa talvez seja a mensagem mais clara e direta do artigo, porque desmonta a ideia ultrapassada de planilhas prontas, de modelos rígidos ou de métodos que ignoram o contexto. Eu já dizia e aplicava isso há anos: não existe treino ideal sem observar o atleta real.
Na mesma direção, o estudo reforça outro ponto essencial: não é a intensidade que transforma, mas a precisão. Os treinadores afirmam que a evolução depende menos de treinar forte e mais de treinar de maneira intencional, com execução clara, com entendimento do propósito de cada sessão. Treinar mais forte do que deveria não é sinal de comprometimento — é sinal de falta de compreensão. E isso vai na contramão da cultura da pancadaria tão presente no ciclismo amador, onde muitos acreditam que se não doeu, não valeu. Na verdade, o que não vale é treinar sem direção.
Outro aspecto fundamental destacado no artigo é a gestão da carga ao longo do tempo. A performance nasce da capacidade de sustentar estímulo por meses, e não de ter semanas isoladas de esforço. Aqui também encontro plena sintonia com aquilo que aplico diariamente: treinar bem não é vencer todos os treinos; é evitar que os treinos se tornem inimigos da recuperação. Cresce quem sustenta. Evolui quem respeita o corpo. Adapta quem sabe dosar.
O estudo também menciona o uso de estressores ambientais — calor, altitude, clima, terreno — como ferramentas poderosas de estímulo. Mas os treinadores deixam claro: eles só funcionam quando inseridos dentro de um sistema coerente, e não como modismos. Não é pedalar no calor por pedalar no calor, nem subir montanhas por subir montanhas. É fazer isso no momento certo, no contexto certo, com a intenção certa. E isso, novamente, confirma a filosofia que sempre adotei: estímulos isolados não constroem nada; coerência constrói tudo.
A segunda grande conclusão do artigo diz respeito à saúde, à recuperação e à nutrição — elementos que muitos atletas ainda tratam como acessórios, quando deveriam ser os pilares. O estudo deixa claro que a nutrição estratégica é determinante para que o atleta treine, recupere e evolua. Um corpo sem energia não adapta, não evolui, não cresce. E isso derruba de vez a cultura da restrição calórica, tão presente no ciclismo amador: não existe performance sustentável sem comida suficiente. Sempre defendi isso, e é reconfortante ver a ciência e a prática convergindo na mesma direção.
A recuperação aparece, no estudo, como um elemento tão determinante quanto o treino em si. É fora do esforço que o corpo se adapta, reorganiza, reconstrói e evolui. Dormir, nutrir, descansar, baixar o estresse — nada disso é opcional; tudo isso é parte do treino. Isso também é coerente com aquilo que aplico há anos: a recuperação não é descanso; é treinamento passivo. Ignorá-la é estagnar.
A saúde, segundo os treinadores, é o alicerce. Sem ela, não há processo possível. Não existe força suficiente que compense um organismo desregulado, esgotado ou inflamado. A base de qualquer evolução é estar saudável — antes de pensar em treinar forte. Essa é provavelmente a afirmação mais óbvia e, paradoxalmente, a mais negligenciada pelos atletas.
Por fim, o artigo aborda a tecnologia. Os treinadores reconhecem sua importância, mas deixam claro que ela não substitui percepção, sensibilidade e consciência corporal. Dados ajudam, mas não decidem. Números orientam, mas não sentem. A tecnologia é guia, mas não é fonte de verdade. Já vi muitos ciclistas se perderem por confiar mais no medidor de potência do que na própria percepção. O estudo reforça exatamente isso: tecnologia é ferramenta, não direção.
E aqui está, talvez, a grande síntese do texto: os treinadores mais experientes, aqueles que constroem carreiras, não estão preocupados com microdetalhes que só fazem diferença quando tudo o mais já está resolvido. Eles focam no essencial. E isso é profundamente alinhado com aquilo que faço há muitos anos: construir atletas fortes, conscientes, estruturados e consistentes a partir de bases sólidas.
Essas bases não são o ganho marginal. São o coração da evolução.
São elas que permitem que o atleta carregue volume, suporte intensidade, mantenha estabilidade emocional e fisiológica, participe de provas sem quebrar, volte a treinar no dia seguinte, aprenda sobre si mesmo e construa uma carreira, e não momentos.
Para você, ciclista, isso significa que talvez a grande revolução que falta no seu processo não seja treinar mais, nem treinar mais forte, nem buscar novidades. Talvez a grande mudança seja voltar ao que realmente importa: dormir melhor, comer melhor, treinar com propósito, recuperar com intenção, respeitar o corpo, ajustar o processo à sua vida e abandonar a ideia de que mais sofrimento gera mais evolução. Não é verdade. Nunca foi.
A performance pertence a quem entende o essencial.
E o essencial é simples, mas não é fácil.
Exige disciplina, paciência, maturidade e, acima de tudo, consciência.
E quando essas bases estão presentes, elas sustentam tudo o que vem depois.
O artigo apenas confirma o que vejo diariamente no ciclismo: a verdadeira evolução não mora nos detalhes; mora naquilo que todos sabem, mas poucos fazem de forma consistente.
Eu não treino atletas para perseguir ganhos marginais.
Eu treino atletas para dominar os fundamentos.
E, quando dominam os fundamentos, os ganhos marginais aparecem naturalmente — sem esforço artificial, sem ansiedade, sem atalhos.
Quem constrói a base, constrói o futuro.
E é exatamente isso que o estudo confirma, e é exatamente isso que venho praticando há anos, com convicção e com resultados duradouros.


