Há um fenômeno curioso acontecendo no ciclismo moderno. Quanto mais informação produzimos sobre treinamento, menos parece que pensamos sobre ele. Nunca tivemos acesso a tantos artigos científicos, podcasts, treinadores, fisiologistas e ferramentas capazes de medir praticamente tudo o que acontece dentro do nosso organismo. Sabemos nossa frequência cardíaca em tempo real, potência, variabilidade da frequência cardíaca, taxa de recuperação, qualidade do sono, temperatura da pele e até estimativas de utilização de gordura como combustível. Ainda assim, tenho a impressão de que estamos compreendendo cada vez menos o processo que realmente constrói um atleta. Talvez porque informação e compreensão nunca tenham sido a mesma coisa.
Poucos exemplos ilustram isso melhor do que a forma como a Zona 2 passou a ocupar um espaço quase sagrado dentro do treinamento de endurance. Em poucos anos, ela deixou de ser uma intensidade fisiológica relativamente bem definida para se transformar em uma espécie de resposta universal para praticamente qualquer problema relacionado à performance. Se você está cansado, faça Zona 2. Se seu FTP estagnou, faça mais Zona 2. Se pretende disputar uma maratona de mountain bike, aumente suas horas em Zona 2. Se quer melhorar sua saúde metabólica, novamente a resposta parece ser a mesma. O curioso é que conceitos científicos raramente sobrevivem quando passam a explicar tudo. Quanto maior o número de perguntas respondidas por uma única resposta, maior costuma ser a probabilidade de estarmos simplificando um sistema complexo demais.
Não me entenda mal, esta não é uma crítica à Zona 2. Muito pelo contrário! Ela provavelmente representa uma das intensidades mais importantes para quem pretende construir uma carreira longa no ciclismo, seja profissional ou amador. O problema nunca foi a intensidade, mas a interpretação. A ciência produziu um conceito sofisticado e o mercado transformou esse conceito em uma receita. E receitas são extremamente sedutoras porque aliviam o peso de pensar.
Acompanhem meu raciocínio… Se alguém disser exatamente em qual potência você deve pedalar, em qual frequência cardíaca deve permanecer e por quanto tempo precisa repetir esse estímulo, a sensação é de segurança. Afinal, basta obedecer. O raciocínio parece não ser mais necessário.
Mas o treinamento nunca funcionou assim.
Existe uma frase atribuída ao estatístico George Box que gosto muito: “Todos os modelos estão errados, porém alguns são úteis.” Sempre achei que essa frase descrevesse perfeitamente o conceito de zonas de treinamento. Porque zonas são modelos e elas não existem na natureza. Nenhum músculo sabe que você entrou na Zona 2, nenhuma mitocôndria recebe uma notificação dizendo que agora é hora de aumentar sua capacidade oxidativa porque seu relógio marcou exatamente 78% da frequência cardíaca máxima. O organismo não trabalha com fronteiras tão bem definidas quanto aquelas desenhadas no visor do ciclocomputador. Ele responde a alterações contínuas de demanda energética, recrutamento muscular, disponibilidade de oxigênio, concentração de metabólitos e sinalização celular. Tudo acontece em um gradiente. Somos nós, treinadores e fisiologistas, que desenhamos linhas sobre esse gradiente para facilitar a prescrição do treinamento.
E aqui começa um dos maiores problemas da popularização da Zona 2.
Quando esquecemos que as zonas são apenas representações da realidade, começamos a acreditar que elas são a própria realidade. Passamos a discutir apaixonadamente se a Zona 2 termina em 75%, 78% ou 80% da frequência cardíaca máxima, como se alguns batimentos por minuto fossem capazes de alterar completamente a fisiologia do exercício. O organismo, entretanto, parece completamente indiferente a essa discussão. O aumento da participação dos carboidratos não acontece de forma abrupta. A utilização de gordura não despenca ao cruzar uma linha imaginária. A ventilação não muda de comportamento porque você ultrapassou determinado watt. Tudo acontece de forma progressiva. O metabolismo não conhece zonas, mas conhece continuidade.
Talvez essa seja a maior ironia do treinamento moderno. Nunca tivemos tanta capacidade de medir a intensidade e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão próximos de esquecer que intensidade é apenas um meio. O objetivo nunca foi permanecer dentro de uma zona específica. O objetivo sempre foi provocar uma adaptação biológica específica. Existe uma diferença enorme entre essas duas formas de pensar. A primeira faz você olhar para o ciclocomputador durante horas tentando manter um número. A segunda faz você perguntar qual sistema fisiológico está tentando desenvolver e se aquele estímulo realmente faz sentido para o momento da temporada, para seu histórico de treinamento e para as características da prova que deseja disputar.
É justamente nesse ponto que a obsessão pela Zona 2 começa a produzir um efeito curioso. Ela nos faz acreditar que todas as adaptações importantes acontecem na mesma velocidade. Talvez porque vivamos em uma época em que esperamos resultados rápidos para absolutamente tudo. Queremos aumentar o FTP em seis semanas, melhorar o VO₂ máximo em dois meses e resolver anos de treinamento mal estruturado com algumas horas adicionais de pedal em baixa intensidade. O problema é que a biologia não negocia com nossa ansiedade. Cada sistema do organismo possui seu próprio relógio. E talvez essa seja uma das ideias mais importantes que um ciclista possa compreender.
A partir de agora, olhe para os seus números como parte de um sistema.
Lamento em te informar que a fixação obsessiva por uma zona não vai ter levar para a sua melhor performance.
Boas pedaladas!


