Pense em uma subida decisiva. O grupo acelera e o ciclista está próximo do limite. O treinador poderia dizer para acompanhar, mas quem sabe se aquele esforço é sustentável é o próprio atleta e ele precisa reconhecer o que está acontecendo. Precisa saber se está diante de uma oportunidade ou de uma armadilha e entender quanto ainda falta. É fundamental avaliar o adversário, interpretar sua própria percepção de esforço e tomar uma decisão.
Nenhuma planilha pode fazer isso por ele e talvez essa seja uma das grandes diferenças entre preparar um ciclista para executar treinamento e preparar um atleta para competir.
No primeiro caso, queremos obediência, no segundo, queremos competência.
A questão fica ainda mais interessante quando pensamos na ideia de treinamento “perfeito”. Existe uma espécie de fetiche pela precisão no ciclismo. Queremos saber exatamente quantos watts, exatamente quantos minutos, exatamente quantos segundos de recuperação, exatamente qual zona, exatamente qual cadência. Como se o corpo fosse uma máquina cujo desempenho pudesse ser otimizado apenas aumentando a precisão das instruções.
Mas existe um problema: a precisão da prescrição não significa precisão da resposta.
Você pode determinar 280 watts com uma precisão absurda. Isso não significa que 280 watts produzirão exatamente o efeito desejado naquele dia.
Você pode definir três minutos de recuperação com precisão de segundos. Isso não significa que três minutos serão suficientes para aquele atleta naquele contexto.
Você pode determinar 90 rpm, isso não significa que 90 rpm sejam necessariamente a melhor solução naquele momento. A precisão matemática não elimina a incerteza biológica e talvez o treinador precise aceitar isso.
O treinador deve ter confiança de que está fazendo um bom trabalho ao administrar a incerteza, e não acreditar que conseguiu eliminá-la. Essa diferença é enorme.
Um treinador inseguro tenta controlar tudo, já o treinador maduro aprende a controlar o que pode e administrar aquilo que não pode (Isso vale também para o atleta).
Talvez uma das maiores habilidades esportivas seja aprender a funcionar bem dentro da incerteza, porque o ciclismo real é incerto.
O vento muda, a temperatura muda, o adversário muda, a estrada muda, o grupo muda, o corpo muda, a estratégia muda, a prova muda e você muda.
Portanto, quanto mais o treinamento for construído como um ambiente absolutamente fechado, mais distante ele pode ficar da realidade que o atleta encontrará quando realmente precisar performar.
Isso não significa abandonar estrutura. Essa seria uma interpretação equivocada. Um ciclista precisa de planejamento, progressão, objetivos, estímulos bem definidos e de organização.
O problema não é ter estrutura, mas acreditar que estrutura significa ausência de liberdade.
Uma boa estrutura deveria criar limites dentro dos quais o atleta possa tomar algumas decisões.
Em vez de simplesmente escrever “4 × 8 minutos a 300 watts”, podemos, dependendo do objetivo, criar uma sessão na qual exista uma faixa de potência, uma percepção de esforço esperada e uma condição para ajustar a execução. O atleta pode aprender a encontrar o esforço adequado dentro daquele espaço. Isso parece menos preciso. Na verdade, pode ser muito mais sofisticado.
Porque estamos treinando duas coisas simultaneamente.
Estamos treinando a fisiologia e também estamos treinando a capacidade de autorregulação.Essa segunda dimensão é frequentemente esquecida.
Imagine dois ciclistas com o mesmo FTP. Um deles consegue executar perfeitamente uma sessão quando o treinador determina cada detalhe. O outro aprendeu a ajustar a intensidade de acordo com o terreno, o vento, a fadiga e as próprias sensações. Qual dos dois você prefere colocar em uma competição de seis horas?
Provavelmente o segundo.
E, ainda assim, nossa cultura de treinamento frequentemente recompensa o primeiro.O ciclista que nunca sai da zona, que nunca altera a cadência, nunca reduz a potência, nunca questiona a sessão e nunca decide.
Esse atleta parece disciplinado, mas talvez esteja apenas condicionado a obedecer.
E existe uma diferença brutal entre disciplina e obediência.Disciplina é conseguir fazer aquilo que precisa ser feito. Obediência é fazer aquilo que alguém determinou.
Um ciclista de alto nível precisa das duas em determinados momentos, mas não pode viver apenas da segunda.
É por isso que gosto tanto da ideia de co-construção do treinamento. O treinador não perde autoridade quando escuta o atleta, pelo contrário, a autoridade se torna mais sofisticada. O treinador continua sendo responsável por interpretar a ciência, organizar o processo, estabelecer prioridades e fazer escolhas difíceis. Mas reconhece que o atleta possui uma fonte de informação que nenhum livro, laboratório ou algoritmo possui: a experiência direta de estar dentro daquele corpo.
O ciclista sabe algo que o treinador precisa — suas percepções e sensações. O treinador sabe algo que o atleta precisa — conhecimento formal sobre processos complexos e fisiológicos, além de uma visão mais ampla do processo. A qualidade do treinamento surge da complementaridade dessas informações.
Isso é muito diferente de simplesmente perguntar ao atleta “como você está se sentindo?” no final do treino.
Cooperação não é colocar o atleta para escolher o próprio treinamento.
É criar uma relação na qual as informações produzidas pelo atleta tenham importância real nas decisões. Se o atleta diz que está exausto e o treinador responde “mas a planilha manda fazer”, não existe cooperação.
Se o atleta relata que uma determinada sessão produz repetidamente dor ou queda de desempenho e o treinador ignora porque “o protocolo funciona”, não existe cooperação.
Se o atleta percebe que rende melhor em determinado contexto e isso nunca é considerado porque “o método é esse”, não existe cooperação.
Existe apenas execução.
E execução pode produzir resultados durante algum tempo, mas aprendi durante esses muitos anos que aprendizado produz atletas que tem maior potencial de ir além.
Talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de um treinador: não apenas fazer o atleta melhorar, mas fazer com que ele compreenda progressivamente por que está melhorando.
Essa perspectiva também muda a maneira como avaliamos o sucesso de um processo de treinamento. Normalmente olhamos para FTP, resultados, potência, colocação, composição corporal ou algum outro indicador objetivo. Tudo isso é importante. Mas existe outro indicador que raramente aparece nos relatórios: o quanto o atleta aprendeu sobre si mesmo?
Ele sabe reconhecer quando está recuperado? Sabe identificar quando está acumulando fadiga? Sabe controlar a ansiedade antes de uma competição? Sabe interpretar uma queda de potência? Sabe diferenciar falta de motivação de fadiga real? Sabe reconhecer quando precisa insistir? Sabe reconhecer quando precisa parar? Sabe ajustar seu esforço? Sabe explicar ao treinador o que está acontecendo?
Se a resposta for não depois de cinco anos de acompanhamento, alguma coisa pode estar errada. Porque talvez o processo tenha produzido um atleta mais condicionado, mas não necessariamente um ciclista mais inteligente. E essa é uma provocação que considero necessária.
O treinador que precisa controlar cada detalhe durante anos pode estar construindo dependência em vez de performance.
Isso não é uma crítica ao treinador que prescreve detalhes. Existem momentos em que a precisão é absolutamente necessária. O problema está em transformar precisão em dogma. Há sessões em que 300 watts são importantes. Há outras em que a percepção do atleta é mais importante e também há momentos em que seguir rigorosamente o protocolo é necessário. Há outros em que a melhor decisão é abandonar o protocolo.
A habilidade está em saber diferenciar os momentos.
A proposta é trabalhar com programas mais abertos, oferecendo diferentes possibilidades e algum grau de liberdade dentro do trabalho. O treinador passa a atuar menos como alguém que desenha um projeto fechado e mais como alguém que constrói decisões a partir do que observa, escuta e encontra no processo.
Isso me parece particularmente importante no ciclismo porque o ambiente de treinamento é naturalmente rico em informações, por exemplo, uma subida não é apenas uma subida.
Se o treinamento transforma tudo isso em um ambiente artificial no qual o ciclista só precisa obedecer ao número, estamos eliminando justamente parte da riqueza que poderia ajudá-lo a aprender.
E talvez o futuro do treinamento não seja uma planilha cada vez mais inteligente, mas uma planilha que saiba quando não precisa dar todas as respostas.
Essa é uma ideia difícil de vender, principalmente em um mercado que adora prometer controle. É muito mais fácil comercializar uma metodologia que diz “eu sei exatamente o que você precisa fazer todos os dias” do que uma abordagem que reconhece que existem momentos em que nem o treinador sabe antecipadamente qual será a melhor decisão. A primeira transmite certeza e a segunda exige maturidade.
Mas performance não acontece em um ambiente de certeza, ela acontece em um ambiente de incerteza.
E o trabalho do treinador, como sugerem os meus pensamentos que motivaram esta reflexão, não deveriam ser eliminar essa incerteza, mas aprender a administrá-la.
Isso também explica por que considero perigosa a obsessão contemporânea por transformar todo treinamento em conteúdo analisável. Cada sessão precisa virar um gráfico e cada esforço precisa ser comparado. Uma subida precisa ser ranqueada e cada treino precisa gerar uma conclusão. Estamos criando uma cultura em que o atleta tem cada vez mais dados sobre o que fez e, paradoxalmente, cada vez menos oportunidade para simplesmente perceber o que aconteceu.
Talvez seja necessário recuperar um pouco do silêncio.
Depois de uma sessão, antes de abrir o aplicativo, talvez valesse a pena perguntar: como foi?
Não qual foi a potência média, o TSS, o IF…
Como foi? Onde você sentiu dificuldade?
Quando percebeu que o esforço começou a mudar?Como estava sua respiração?Como estavam suas pernas? Você sentiu que tinha controle? Você terminou melhor ou pior do que esperava?
Essas perguntas não substituem os dados, elas dão significado aos dados.
E talvez seja justamente essa combinação que produza o treinamento mais inteligente: tecnologia para medir, ciência para interpretar e humanidade para decidir.
No final, continuo acreditando que o treinador tem um papel absolutamente fundamental. Mas talvez esse papel esteja mudando e o treinador do futuro não será aquele que sabe prescrever mais sessões. Será aquele que consegue interpretar melhor o sistema do qual faz parte. Que consegue perceber quando insistir, quando mudar, quando perguntar, quando silenciar e quando deixar o atleta tomar uma decisão.
Porque o objetivo não deveria ser criar um ciclista que execute perfeitamente uma planilha.
O objetivo deveria ser criar um ciclista que consiga performar quando a planilha deixar de existir.
Afinal, na competição não existe botão de “pausar”, não existe treinador dentro do corpo e não existe algoritmo capaz de sentir exatamente aquilo que você está sentindo naquele momento.
Existe você e seu corpo, sua experiência, sua capacidade de perceber e decidir.
E talvez seja exatamente por isso que a melhor preparação não seja aquela que elimina todas as decisões do atleta, mas aquela que ensina o atleta a tomar decisões cada vez melhores.
No fim, talvez a pergunta mais incômoda que um ciclista possa fazer ao olhar para sua planilha seja esta:
Estou seguindo um treinamento ou estou aprendendo a treinar?
Porque as duas coisas podem parecer iguais durante um tempo, mas não são.
Seguir uma planilha pode fazer você completar centenas de sessões. Aprender a treinar pode fazer você se tornar, pouco a pouco, capaz de entender por que algumas sessões foram importantes, por que outras precisaram ser modificadas e por que, às vezes, o melhor treino é justamente aquele que você decidiu não fazer.
E talvez seja aí que esteja uma das maiores diferenças entre simplesmente ter um treinador e realmente construir uma relação de treinamento.
O treinador não deveria ser o dono das respostas, deveria ser alguém que ajuda você a fazer perguntas melhores.
Não deveria tentar eliminar toda a incerteza, deveria ensinar você a navegar por ela.
Não deveria transformar você em um executor perfeito, deveria ajudar você a se tornar um atleta cada vez mais consciente.
Porque, no final, o melhor treinamento não é necessariamente o mais difícil, o mais estruturado ou o mais sofisticado.
É aquele que faz sentido para o ciclista que existe naquele momento, sabendo que esse ciclista está em constante adaptação, todos os dias.


