Alta performance sob diferentes regras: Lições do ciclismo e dos negócios
Como as diferenças entre ambientes gentis e perversos moldam atletas e empreendedores na busca pela alta performance.
Desempenho é desempenho, independentemente do contexto? Essa é uma ideia frequentemente repetida, mas será que devemos encarar dessa maneira? Quando falamos em desempenhar em alto nível, seja no ciclismo, nos negócios ou em qualquer outra área, encontramos elementos comuns como regulação emocional, gerenciamento do estresse, resiliência, tática e estratégia. No entanto, há também diferenças significativas entre esses universos, o que torna as comparações simplistas perigosas.
Olhando pela perspectiva da fisiologia do estresse e do funcionamento do cérebro preditivo, podemos ver que, biologicamente, todos lidamos com desafios de maneira semelhante. Nosso sistema nervoso é projetado para resolver problemas e encerrar desafios, independentemente da área de atuação. Mas isso significa que o desempenho de um CEO pode ser diretamente comparado ao de um ciclista profissional?
O psicólogo Robin Hogarth propôs uma distinção fundamental entre dois tipos de ambientes de aprendizado: gentis e perversos. Ambientes gentis são caracterizados por regras fixas e feedback rápido e preciso. No ciclismo, por exemplo, um atleta sabe que seu treino de repetições na subida dará um retorno previsível: se ele seguir a carga corretamente, seus números de potência e resistência melhorarão ao longo do tempo. Da mesma forma, um ciclista que segue um plano de nutrição bem estruturado pode esperar resultados na sua performance.
Por outro lado, ambientes perversos são caracterizados por incerteza, feedback confuso e regras dinâmicas. O mundo empresarial frequentemente se encaixa nesse segundo tipo. Empreendedores que atuam em mercados altamente dinâmicos precisam lidar com informações incertas e tomar decisões em cenários onde a relação entre causa e efeito nem sempre é evidente de imediato. O que funcionou para uma startup pode não funcionar para outra. Da mesma forma, um ciclista de mountain bike pode planejar uma estratégia baseada nas condições do percurso, mas uma mudança climática inesperada ou uma queda logo no início da prova podem forçá-lo a improvisar em tempo real.
Essa distinção é essencial porque muda a forma como entendemos a preparação e o aprendizado em cada área. Atletas de alto rendimento passam anos treinando e refinando suas habilidades antes de sua grande performance. Eles têm tempo para corrigir erros e aprimorar a execução até o momento da competição. CEOs, por outro lado, estão constantemente em jogo. Empresários que construíram grandes organizações tomaram decisões estratégicas ao longo de anos, nem sempre com um caminho claro à frente, mas sempre se adaptando às mudanças do mercado.
Essa diferença pode ser ilustrada por uma analogia simples: imaginar um ciclista que, ao alinhar para a largada, recebe a notícia de que a prova terá mais 100 km do que o esperado. Esse tipo de incerteza é raro no esporte de alto desempenho, mas comum no mundo dos negócios. A instabilidade não significa que um ambiente é mais fácil ou mais difícil que o outro, mas sim que as estratégias de sucesso precisam ser diferentes.
Podemos ver isso também na carreira de atletas que se reinventam, como ciclistas que transicionaram do mountain bike para o ciclismo de estrada e, depois, para o gravel. Essa capacidade de adaptação se assemelha a empreendedores que pivotam seus modelos de negócio diante de novas tendências e desafios.
Portanto, ao comparar desempenhos entre áreas distintas, é crucial considerar os diferentes contextos e as dinâmicas de aprendizado envolvidas. Embora existam princípios comuns, como resiliência e regulação emocional, a maneira como essas habilidades são aplicadas varia significativamente. Compreender essa diferença nos ajuda a evitar simplificações excessivas e a valorizar as especificidades de cada campo de atuação.


